domingo, 14 de dezembro de 2014

Queria ter o privilégio
De me poder chamar artista.
Ficar grata,
Todos os dias,
Pelo dom que Deus me deu.
Ser aplaudida,
Fazerem-me a vénia
Poder abrir o botão das calças e arrotar de despreocupações,
Estar eternamente saciada.
Não pedir ou ambicionar nada,
A não ser a prestígio,
O reconhecimento de ter criado algo.
Acordar todos os dias,
Sem a inquietação de ter de conseguir criar haveres,
Os quais ainda mais ninguém criou.
Ter tempo para me deitar ao sol,
Ou simplesmente esquecer que há mundo.
Para além das minhas dissonâncias
Sobre pseudo-arte e outras tristezas várias,
Queria ter tempo para criar algo a sério,
E deixar de invejar aquilo que acho que outros fazem não tão bem,
Os quais tem tempo para tal.
Anseio apenas ser uma singela escritora de romances de cordel,
Solitária entre o reconhecimento de amores vadios,
Não meus.
Mas daqueles a que eu chamo gente.
Personagens imaginadas,
Que retratam aquilo que eu eventualmente queria ser em tempos,
Ou quererei ser,
Inconscientemente.
Aquilo que não tive partido (nem coragem),
Para o poder fazer.
Resta-me agora ser
Uma miserável senhora que se prende nos imaginários
Que criam apetites ferozes
A indivíduos desconhecidos.
Uma espetadora de vidas que eu próprio crio.
Uma derrotada.
Uma contranatura.

Uma incompreendida.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Sinto-me como se estivesse dentro de uma cápsula
Com a vista embaciada,
Enclausurada
Onde ninguém me reconhece

Vejo apenas vultos,
Sombras frenéticas
Não consigo fixar os olhares por que passo

Falseiam-se de cores, de sorrisos,
Feições

Quero desvendá-los, hipócritas
Atores da sua própria ação
Infiéis às suas crenças
Temem apreciação

Pensamentos dúbios, veementes

As dissonâncias dos outros desabam diante dos meus olhos turvos
E secam-nos,

Como se de um deserto árido se tratassem.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Reconforto-me nas memórias do futuro
Na esperança da euforia calma
No calor dos teus abraços à distância

Da alegria apareceu mais alegria
Ânsias de plantar o presente fértil
De fazer canções de embalar
Para acordar os sentidos cansados

Já oiço a música de fundo
Já vejo estantes a abarrotar de livros
Já te imagino a fumar à janela
E um gato a reconfortar-nos o colo

A simplicidade da plenitude efémera
A vontade de criar


quarta-feira, 25 de junho de 2014


Conto II

Ela era uma notívaga, uma visionária. Das coisas que mais prazer lhe dava, era ficar acordada até altas horas da manhã, aquando o sossego e a serenidade perduravam. Todos os dias, por volta das duas da manhã, podíamos observar a Júlia, debruçada ao parapeito da janela, a contar as estrelas e as janelinhas iluminadas que via no horizonte, ao mesmo tempo que leva com a brisa suave da madrugada na face.
Júlia escrevia, ao parapeito, misteriosa.
Eu também era um notívago, um sonhador. Um sonhador que desejava encontrar o outro pedaço de mim disposto a partilhar o luar comigo.
Eu não costumava passar a noite à janela, mas desde aquela pausa para o cigarro feita àquela hora, naquele preciso momento, algo mudou: foi quando a vi, com o seu rosto iluminado pelo candeeiro do seu quarto, o seu ar tão relaxado deixou-me em plena comunhão.
Foi assim durante duas semanas. Mudei-me para o parapeito da minha janela, à espera, eventualmente, que alguma estrela a iluminasse na minha direção, mas para minha infelicidade isso nunca aconteceu. A Júlia, como eu lhe chamo, nunca mais apareceu à madrugada e eu, passei a viver o dia, com esperança que ela tenha tomado a mesma decisão, acreditando encontrá-la um dia, numa tarde solarenga. 

domingo, 20 de abril de 2014

Elegi-te
Elegeste-me
Elegemo-nos mutuamente
Sem dar conta

Sem dar conta
Demo-nos conta
Que somos um só
Um eternamente
Um para sempre

No meio da balbúrdia
Estamos nós
Cheios de certezas
Cheios de nós
Como um nó
Juntinhos
Cheios de amor
E de carinho

É tão bom saber o que é amar
Amar freneticamente
Amar desenfreadamente
Glorificando-nos
Magnificando o nosso amor
Saber o que é ser amado
Saber o que é ser esperado

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Sou uma ‘não subsidiada’
Invisto no talento e na imaginação que acho ter
E lanço o mote,
Esperando misericórdia pela minha arte

O meu sonho é fazer do amor profissão
Não pelas práticas que todos o conhecem
Mas como eu o vejo

Amor é aquilo que faço
O fruto das ideias,
Dos delírios que me passam pela cabeça enquanto durmo

E que anseiam ser materializados

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Conto I
Pergunto-me, todos os dias aquando da meia hora de metro se pertenço realmente a algum lugar. Até se todos temos um lugar.
Ou será que vamos arranjando refúgios entre paredes para passar o tempo ou apenas para nos abrigarmos de nós próprios.
Sinto que não tenho sítio. Que vou tendo. Aqui, ali. Tal como as pessoas: vão saltitando na minha vida como com prazo de validade ou por estação do ano, tendo em conta as vontades e os humores.
Até que gostava de pertencer a um lugar. Queria pertencer a algum lugar. Ter a minha toca. Aquele lugar em que conhecia por todo o metro quadrado. Que me aquecesse a alma aquando do frio e das indisposições. Ao menos tinha algo com que contar.
Olho para as pessoas no metro. Sinto que todas desesperam por um regresso a casa. Para o calor da família, do cheiro a comida acabadinha de fazer com amor, de lençóis lavados, de paz. Tinha curiosidade de saber como é cada lugar, de cada pessoa, de cada vida.
Ao pé destas pessoas, o que é a minha vida? Se é que se pode chamar assim. Tenho quase quarenta anos e nunca soube o que é isso. A minha vida resume-se a um minúsculo quarto: uma cama, uma mesa-de-cabeceira, uma cadeira e uma bacia. Tudo coisas que não são minhas. Até a vista que me penetra os olhos da janela do quarto alugado não é minha. Foi alugada, como tudo o resto.
Começo a achar que isto de alugar uma vida não é para mim.
Tenho a sensação de não passar de um mero acessório do mundo. Que fui feito para andar por ai ao sabor do vento. Pode ser que chegue, eventualmente, a pertencer a algum lado mas certamente não será agora.
O metro parou, as pessoas saem, cada uma com o seu rumo. Já eu vou ao rumo que o destino quiser. À espera de chegar a pertencer a algum lugar.

quinta-feira, 20 de março de 2014


Uma raiva intrínseca
Uma infindável eternidade que me deixa claustrofóbica
Com as palavras que não foram ditas

Dilemas incalculáveis da minha pessoa
Miragens de gente grande
Que não passam disso
Miragens
Aqui, eu
Aprisionada
Nas apreciações daquele nada,

Daquela infindável eternidade 

sábado, 1 de março de 2014

Queria tanto perder-me nas melancolias dos outros
Ser uma escritora a sério
A tempo inteiro
Ser inteira

Escrever até acerca dos mais recônditos escombros
Até
Conseguir olhar os seres, por dentro
Narrando-lhes os medos e as imperfeições

Quero olhar para uma pedra
E escrever
Quero olhar o horizonte
E escrever
Escrever sobre aquilo que me transmites
Ao entardecer
Sobre as saudades que dizes ter
E que me matam aos pouquinhos

Porque não te posso ver

sábado, 22 de fevereiro de 2014


Um monte de resmas de papel
À minha frente
E eu sem nada para escrever
Quem me dera cravar-te na carne
Os pensamentos
Aquilo que não te sei dizer


sábado, 15 de fevereiro de 2014

Fodeste-te com os passos que deste em contramão
Arrastaste a vida
Até caíres na exaustão

Não passas de matéria
Que fatidicamente acabará nas preces de alguém
Na memória de todos
Embalado sob forma de poeira
Ou na pátria que ninguém tem

Perdoar-te-ão pelas misérias
Pelas mofinas que arrastaste contigo
Gabar-te-ão como tivesses sido um bom homem

Passas do carrasco para o ídolo
Por ti gritam saudade

E eterna paixão

domingo, 2 de fevereiro de 2014


Repetitivamente pergunto-me
Porque anda sempre tudo tão alienando
Com os olhos vendados de ignorância
De desmazelo

Já não sonham
Já não olham o pôr-do-sol
Não reparam que as flores continuam a crescer
Que os vizinhos já não são os mesmos
Que construíram um prédio em frente ao deles

Quando é que param para viver?
Quando é que param para sonhar?

Quando é que param para olhar para si
E fazer impedir
Que sejam mortos
Sugados pelo tempo

Que já não volta atrás

terça-feira, 28 de janeiro de 2014


O que fazer às lembranças
Às memórias
De quem já te foi tanto
Mas que agora
Não passam apenas de isso mesmo,
Memórias

Objetos
Cheiros
Músicas e recordações visuais
De passagens verdadeiras?
Momentâneas?
Que o teu cérebro faz questão de guardar
Ou será a consciência
A querer-se afirmar?

O que te fez corar
Ou outrora chorar
Transformou-se num aviso
Em experiência
Em ensaios que ficaram por dar

Despedacei-me
Tornei-me um só
Tornei-me numa inteira
Esculpi-me no conforto
Das cachimónias quentes

E deixei-me estar

sábado, 25 de janeiro de 2014

Aqui estou eu, quieta, sossegada no meu quarto, no meu canto, na penumbra da calma.
Lá fora o sol brilha, as árvores e as ervas movem-se ao sabor do vento como se de uma valsa se tratasse. Como está tudo tão harmonioso.

Ponho a cabeça de fora da janela e uma brisa fresca e rápida enche-me os pulmões de esperança. Deu-me sinal que estou viva e mostra-me o que ando a perder lá fora. A natureza apanhou-me o coração. Que saudades tinha eu tuas, do sol e das plantas verdinhas que gritam primavera.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014


E aquela música toca interminavelmente
Toca até eu a deixar de ouvir
Tenta embalar-me à força
Quer fazer-me esquecer o que fizeste por mim
Quer enfeitiçar-me
Quer mudar-me o rumo
Aquele rumo que tentei traçar sozinha
Quer levar-me para um lugar inóspito

Pondero as palavras
Cinjo-me ao essencial
Ao rotineiro

A solidão está cheia de gente
E eu estou cheia de mim
Quem sou eu para falar

Nunca me vi assim

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014


Achava que ia ser um dia bonito
Que haveria alento em mim
Dar-te-ia o meu recanto
Mas para meu espanto
Tudo foi que não assim

Acham que tudo começa
E que tudo tem um fim?
Eu descordo
E creio em mim

Quero sair à rua
Quero dançar o tango
Quero fugir da ordem

O cansaço apoderou-se de nós
Roubou-nos a virtude
Os olhares vãos e mal gastos

Não passamos de estados de alma
Cansados e perdidos entre ruas e jardins
Que tentámos descobrir

Servimos este mundo
Àquela hora já não sentia nada
Contorço-me de revolta

Parem de amar tudo
E no fim nada amarem
Parem com as hipocrisias
Parem de brincar à liberdade
Às democracias
E dizer que são feitas as vontades

Estou revoltada, eu sei que sim
Mas se não for eu

Quem o faz por mim?