Pai,
sim tu, Pai. Afinal de contas continuas a ser meu Pai, o meu Pai. Quer queiras
quer não, que eu queira quer não, quer alguém queira quer não.
Eu
sei que a vida muda, que nos muda, que nós mudamos mas os laços não se perdem.
Eu percebo que as relações acabem, que o amor morre, eu compreendo tudo isso e
não te julgo por isso, apenas entendo que são coisas que acontecem…
Agora,
o que me custa, o que me dói do fundo da minha alma é o não perceber por que
motivo me fizeste o que fizeste. Eu serei sempre tua filha e saber que já não
me vês como tal é provavelmente a coisa que mais me custa nesta vida. O amor
que tinhas pela Mãe pode ter desaparecido mas sinceramente não entendo como e
porquê é que o amor que tinhas por mim também se foi, assim. Podes ter a
certeza que apesar das nossas desavenças deste tempo todo, tenho saudades tuas,
tenho mesmo muitas saudades tuas. Gostava que me conseguisses olhar nos olhos,
que sorrisses para mim. Tenho saudade da tua voz, de falar contigo. Gostava que
me deixasses fazer parte da tua vida, deixares-me dizer-te o quão gosto de ti e
de saber que terei para sempre um lugar nos teus braços. Gostava que te
lembrasses de mim.
Gostava
que tu e a avó não se tivessem esquecido que faço parte de vocês. Gostava de
conhecer a pessoa a que chamo “Pai”, que sinceramente já não conheço. Acho que
dezoito anos da nossa vida não se deitam assim para trás das costas desta
maneira, sem mais nem menos.
Explica-me
por favor como e porquê é que te tornaste na pessoa que te tornaste. Por favor
explica-me.
Eis
a minha mais profunda mágoa.
Vertendo
as minhas sinceras lágrimas, da tua filha que te ama, Mariana.
(Espero
que um dia destes tenha coragem para te enviar esta carta, tirar este peso de
cima para talvez perceber o porquê deste desgosto que me deste, Pai.)