Conto I
Pergunto-me,
todos os dias aquando da meia hora de metro se pertenço realmente a algum
lugar. Até se todos temos um lugar.
Ou será que
vamos arranjando refúgios entre paredes para passar o tempo ou apenas para nos
abrigarmos de nós próprios.
Sinto que não
tenho sítio. Que vou tendo. Aqui, ali. Tal como as pessoas: vão saltitando na
minha vida como com prazo de validade ou por estação do ano, tendo em conta as
vontades e os humores.
Até que
gostava de pertencer a um lugar. Queria pertencer a algum lugar. Ter a minha
toca. Aquele lugar em que conhecia por todo o metro quadrado. Que me aquecesse
a alma aquando do frio e das indisposições. Ao menos tinha algo com que contar.
Olho para as
pessoas no metro. Sinto que todas desesperam por um regresso a casa. Para o
calor da família, do cheiro a comida acabadinha de fazer com amor, de lençóis
lavados, de paz. Tinha curiosidade de saber como é cada lugar, de cada pessoa,
de cada vida.
Ao pé destas
pessoas, o que é a minha vida? Se é que se pode chamar assim. Tenho quase
quarenta anos e nunca soube o que é isso. A minha vida resume-se a um minúsculo
quarto: uma cama, uma mesa-de-cabeceira, uma cadeira e uma bacia. Tudo coisas
que não são minhas. Até a vista que me penetra os olhos da janela do quarto
alugado não é minha. Foi alugada, como tudo o resto.
Começo a achar
que isto de alugar uma vida não é para mim.
Tenho a
sensação de não passar de um mero acessório do mundo. Que fui feito para andar
por ai ao sabor do vento. Pode ser que chegue, eventualmente, a pertencer a
algum lado mas certamente não será agora.
O metro parou,
as pessoas saem, cada uma com o seu rumo. Já eu vou ao rumo que o destino
quiser. À espera de chegar a pertencer a algum lugar.