Conto II
Ela era uma notívaga, uma visionária.
Das coisas que mais prazer lhe dava, era ficar acordada até altas horas da
manhã, aquando o sossego e a serenidade perduravam. Todos os dias, por volta
das duas da manhã, podíamos observar a Júlia, debruçada ao parapeito da janela,
a contar as estrelas e as janelinhas iluminadas que via no horizonte, ao mesmo
tempo que leva com a brisa suave da madrugada na face.
Júlia escrevia, ao parapeito,
misteriosa.
Eu também era um notívago, um sonhador.
Um sonhador que desejava encontrar o outro pedaço de mim disposto a partilhar o
luar comigo.
Eu não costumava passar a noite à
janela, mas desde aquela pausa para o cigarro feita àquela hora, naquele
preciso momento, algo mudou: foi quando a vi, com o seu rosto iluminado pelo
candeeiro do seu quarto, o seu ar tão relaxado deixou-me em plena comunhão.
Foi assim durante duas semanas. Mudei-me
para o parapeito da minha janela, à espera, eventualmente, que alguma estrela a
iluminasse na minha direção, mas para minha infelicidade isso nunca aconteceu.
A Júlia, como eu lhe chamo, nunca mais apareceu à madrugada e eu, passei a
viver o dia, com esperança que ela tenha tomado a mesma decisão, acreditando encontrá-la um dia, numa tarde solarenga.