quarta-feira, 25 de junho de 2014


Conto II

Ela era uma notívaga, uma visionária. Das coisas que mais prazer lhe dava, era ficar acordada até altas horas da manhã, aquando o sossego e a serenidade perduravam. Todos os dias, por volta das duas da manhã, podíamos observar a Júlia, debruçada ao parapeito da janela, a contar as estrelas e as janelinhas iluminadas que via no horizonte, ao mesmo tempo que leva com a brisa suave da madrugada na face.
Júlia escrevia, ao parapeito, misteriosa.
Eu também era um notívago, um sonhador. Um sonhador que desejava encontrar o outro pedaço de mim disposto a partilhar o luar comigo.
Eu não costumava passar a noite à janela, mas desde aquela pausa para o cigarro feita àquela hora, naquele preciso momento, algo mudou: foi quando a vi, com o seu rosto iluminado pelo candeeiro do seu quarto, o seu ar tão relaxado deixou-me em plena comunhão.
Foi assim durante duas semanas. Mudei-me para o parapeito da minha janela, à espera, eventualmente, que alguma estrela a iluminasse na minha direção, mas para minha infelicidade isso nunca aconteceu. A Júlia, como eu lhe chamo, nunca mais apareceu à madrugada e eu, passei a viver o dia, com esperança que ela tenha tomado a mesma decisão, acreditando encontrá-la um dia, numa tarde solarenga.